


Nocturna encostou o focinho no ombro de Davi, quieta como a última sombra da noite. Com a pata prateada, virou a última página do livro. Um cheiro de papel velho subiu da capa fechada. As estrelas iam para o alto, invisíveis, à espera da próxima noite.
Único no mundo. Seu para sempre.
Uma história Lumora
impresso para Davi
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O sol nasceu nas janelas altas, dourado e devagar. A luz caiu sobre o teto, e o Grande Urso perdeu o brilho, estrela por estrela. Davi olhou as constelações escorregarem de volta para as páginas abertas nos livros. No degrau mais alto, com a mão ainda na capa, sentiu o calor do dia chegar de mansinho.


Davi pisou no último degrau. O livro maior esperava aberto, com páginas do tamanho de uma porta. Ele segurou as bordas e leu alto, a voz firme no ar frio: — Esta é a história do Grande Urso do Céu. As letras brilharam ao som da própria voz de Davi.


A cúpula tremeu de luz. Uma a uma, as estrelas soltaram-se do teto e desceram em fila prateada pela escada. Davi sentiu o ar mais frio no rosto e ouviu um zunido fino, como sino de vidro. As constelações rodearam os degraus, e ele riu alto, sozinho no meio delas.


Davi olhou a lanterna na palma da mão. Já não precisava dela — as linhas do céu moravam nos seus olhos. Desligou-a e ergueu-a para Nocturna, que baixou o focinho enorme até a luz. — Toma — disse ele. — Agora eu vejo sem isso.


Sem a lanterna, o escuro cobriu o degrau todo. Davi parou e olhou bem para a página. Linhas finas de prata ligavam estrela a estrela, do jeito exato do teto lá em cima. Davi sorriu: o livro tinha o céu inteiro escondido dentro dele.


Nocturna balançou a cauda prateada, devagar, como quem não tem pressa. Um vento frio saiu dela e correu pela escada. A lanterna de Davi tremeu e apagou. Davi ficou parado no escuro, sem nenhuma luz na mão.


Davi curvou as costas e abriu os braços como um telhado. A sombra caiu certinha por cima do lugar onde o livro tinha estado. Embaixo dele ficou tudo escuro, sem cheiro de papel velho, sem nada. Davi ficou parado, com o corpo ainda dobrado, sem uma luz sequer para ler.


A ursa gigante, Nocturna, apontou a pata prateada para a janela mais alta. Uma réstia fina de luz cortava o céu escuro lá fora. Davi olhou para baixo e viu os degraus perderem o brilho, um a um. — O tempo anda mais depressa do que você pensa — disse Nocturna.


A estrela mais forte vacilou e ficou mole como cera quente. Davi ficou parado, sem tocar em nada. As pontas de luz ao redor apagaram uma a uma, silenciosas, e um cheiro de papel velho subiu da página. Um canto dela virou poeira fina, e Davi puxou a mão para trás, com medo de ter estragado tudo.


Davi abriu o livro no degrau da metade. A página brilhava com pontos de luz espalhados, e um deles era maior que os outros. Davi fixou os olhos só naquela estrela grande e leu bem alto o nome dela. As outras luzes tremeram, pequenas e esquecidas ao redor.


No meio da escada, a luz da cúpula tremeu. Uma forma prateada desceu devagar, do teto até o degrau. Era um urso enorme, feito de brilho e sombra, parado bem no caminho de Davi. Davi parou a lanterna no ar e olhou para os olhos redondos da fera.


Davi pôs o pé no primeiro degrau. A escada em caracol subia alta, feita de livros dourados empilhados uns sobre os outros. Ele apontou a lanterna para cada degrau antes de pisar, e a luz acendia letras douradas debaixo dos seus pés. Degrau por degrau, Davi subiu sem olhar para baixo.


Davi empurrou a porta pesada no topo da colina. Lá dentro, os livros cobriam as paredes até o teto, cada um com uma luz própria, fraca e fria. Acima, a cúpula mostrava o céu inteiro, estrela por estrela. Davi respirou fundo e perguntou baixinho: — Para onde vão as estrelas quando o sol nasce?

para Davi
Davi sobe uma escada de livros luminosos para ler os segredos das constelações antes do amanhecer.
Uma história Lumora
impresso para Davi



