


Helena abriu a tampa do cesto e escolheu a ameixa mais redonda, mais doce, a rainha de todas as outras. Estendeu a mão pequena até ao focinho enorme e macio, sem tremer nem um pouco. O dragão verde-jade inclinou a cabeça e aceitou o presente com um sopro quente e manso. Lá em baixo o sol escorregava atrás das montanhas, e o platô inteiro ficou cor de ameixa madura.
Único no mundo. Seu para sempre.
Uma história Lumora
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Helena olhou para cima e a bruma desenrolou-se, devagar, como um véu que alguém puxava. Dela nasceu um dragão verde-jade, enorme e manso, escamas macias como folhas molhadas de orvalho. Ele baixou o pescoço comprido até quase tocar o cesto de ameixas. Helena sentiu o peito quentinho, cheio de uma alegria sem pressa nenhuma.


Depressa, depressa, as tábuas já livres cantavam sob as botas de Helena. O cesto batia leve nas costas, leve como se as ameixas pesassem menos que a esperança. Rocha firme, rocha funda — as botas tocaram o platô e a luz dourada rasgou as nuvens, um raio só para ela. Helena riu alto, sozinha na bruma que se abria.


O bode trotou atrás da ameixa, casco a casco, até à rocha lateral onde a fruta parou de rolar. Ali ficou, feliz, mastigando a doçura que tanto queria. A ponte, enfim livre, esticou-se limpa e calma diante de Helena. O caminho até ao platô abriu-se todo — pronto, quieto, seu.


Firme e baixinha, Helena escolheu a ameixa mais doce, mais redonda, mais mole ao toque. Rolou-a devagar pela tábua funda, um golinho de roxo fugindo na madeira. O bode farejou o ar e esqueceu o cesto, os olhos presos naquele rolar manso. Helena sorriu sem mexer um músculo: a ponte, por fim, cantava só para ela.


Helena dobrou os joelhos, baixinho, baixinho, como quem reza ou como quem dança. Trocou o corrimão alto pelos cabos de baixo, firmes e frios contra as palmas. Encostou o cesto à tábua central, ameixas e vime num só corpo quieto. A ponte, lá em cima, balançava — mas ali embaixo, Helena era pedra.


Helena parou, o coração ainda a saltar mais alto do que o bode. O corrimão dançava a cada patada, um sobe-e-desce de balanço e susto. Mas junto às botas, quietinhos, os cabos de baixo nem tremiam. Helena olhou para eles, surpresa: ali embaixo, a ponte quase não cantava.


Helena inclinou o corpo para a borda, fugindo dos cornos curiosos do bode. A ponte balançou fundo, um balanço grande e redondo. Duas ameixas rolaram do cesto, silenciosas, e sumiram no nevoeiro do desfiladeiro. Só o vento respondeu, sem pressa nenhuma, como se tivesse todo o tempo do mundo.


O bode empurrava, o cesto oscilava, e Helena recuou três passos pequenos contra o vento. Foi então que a bruma trouxe uma voz funda, vinda do outro lado do desfiladeiro, redonda como um trovão manso: — A ponte canta com o vento, Helena! Não lutes contra ela! — As tábuas responderam num rangido comprido, quase uma resposta, quase uma canção.


Da bruma subiu um cheiro de pelo molhado e pedra fria, e um bode das penedias saltou para as tábuas, focinho erguido, barbicha a tremer. Plantou os cascos no meio da ponte, chifres baixos, e empurrou o focinho fundo no cesto de vime. Helena sentiu os dentes puxarem a asa, sentiu o cesto fugir-lhe do ombro. — Não! — gritou, e o coração bateu mais alto do que o vento.


Do fundo do vale subiu um vento grosso, cheirando a pedra fria e a musgo. As tábuas gemeram, o cesto pendeu para um lado, as ameixas rolaram todas para a mesma parede de vime. Helena agarrou o corrimão alto com as duas mãos e prendeu a respiração. Lá embaixo, o desfiladeiro era só nevoeiro e distância.


Um pé, depois o outro: as tábuas gemiam um canto rangido, fino como fio de cigarra. O cesto pesava, balançava, puxava Helena ora para a esquerda, ora para a direita. Lá em baixo, o desfiladeiro guardava o seu silêncio de pedra funda. Helena respirou o vento frio das ameixas e seguiu, tábua a tábua, curiosa do que a ponte tinha para cantar.


Ali estava a ponte, esticada como uma corda de viola sobre o desfiladeiro fundo. Bandeirinhas azuis, vermelhas e amarelas tremiam nos cabos, batendo um tantã leve contra o vento. Helena parou na primeira tábua e sentiu o peito bater fundo, feliz e pequeno ao mesmo tempo. Do outro lado, só nevoeiro e promessa de cascata.


As alças do cesto cortavam de leve os ombros de Helena, cheias de ameixas maduras e do doce cheiro de terra molhada. Lá em cima, Quiet Mountain guardava o último degrau de pedra, dourado e íngreme sob a tarde. Helena firmou as tiras, esticou a coluna e respirou fundo, um respiro comprido feito de coragem e de pressa. Faltava só a subida final — e o nevoeiro já namorava o cume, longe, mas não tanto.

para Helena
Helena precisa de atravessar uma ponte suspensa nas montanhas antes que o nevoeiro feche o caminho.
Uma história Lumora
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