


A praia foi ficando quieta, quieta, do jeito que a noite gosta. Do outro lado do riacho, pegadas duplas e marcas de garras contavam, na areia, o caminho de lado que Manuela e Barnabé tinham inventado. E os caranguejos pequeninos, um a um, seguiam a mesma trilha em silêncio, sem medo nenhum da espuma.
Único no mundo. Seu para sempre.
Uma história Lumora
impresso para Manuela
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Do outro lado, a areia recebeu quatro pés e oito patas ao mesmo tempo. Ali, os jardins se abriram todos juntos — pétalas cor-de-rosa e roxas, acesas como lanternas na luz mole do fim de tarde. Manuela riu baixinho, e Barnabé esticou as antenas para o brilho, os dois cercados de flores que respiravam devagar.


Barnabé espiou de dentro da concha, viu Manuela dançando de lado, e saiu todo — patas, olhos e antenas. Passo com passo, lado com lado, os dois seguiram juntos para dentro da água. — Clique, clique — faziam os saltos de Manuela, e as oito patas de Barnabé respondiam no mesmo compasso.


Manuela virou o corpo de lado, dobrou os joelhos e experimentou: um passo, dois passos, três passos, de banda. Os calcanhares batiam no molhado — clique, clique, clique — como castanholas de conchinha. Era quase uma dança, uma dança de caranguejo, ali na beira do riacho.


Manuela largou a trela partida na areia molhada e ficou quieta, só olhando. Barnabé não andava para a frente, nunca: andava de lado, devagarinho, um passinho e outro passinho, como quem dança sem pressa nenhuma. Foi então que Manuela entendeu — e sorriu.


O sol descia devagar, pintando o céu de laranja fundo e rosa-dourado. A maré começava a voltar, um fio de água subindo manso pelo canal. Manuela ficou ali, sentada na areia molhada, olhando o brilho da luz na concha de Barnabé.


A trela estalou de repente, e Manuela caiu de bunda na areia molhada. Barnabé recuou depressa e enfiou a casca funda numa fenda de pedra, só as antenas de fora. — Fiquei preso e sem trela! — resmungou Barnabé, escondendo o rosto.


Manuela puxou a trela de couro com a mãozinha firme, devagarinho, e balançou diante dele uma fita de alga seca, doce como fruta do mar. Barnabé cheirou a fita, curioso, mas as patas teimosas empurraram para trás, para trás, fugindo da espuma. Manuela puxou mais um pouco — determinada, decidida — sem saber o que vinha a seguir.


Barnabé chegou até a beira molhada e travou as oito patas fundo na areia, feito uma âncora teimosa. — Nem mais um passo! — estalou, sacudindo as antenas para trás. — Essa espuma faz cosquinhas assustadoras nas minhas patas!


Manuela pisou na água e riu — fria, rasa, um cosquinha só nos pés. Chape, chape, chape, três passinhos rápidos e já estava do outro lado. Virou-se e acenou para Barnabé, toda molhada e feliz: — Vem, é fácil, vem!


De repente a areia acabava numa fita de água rápida, borbulhando e cantando entre as pedras. Do outro lado, escondidos atrás de um véu de espuma, esperavam os jardins de anêmonas. Manuela parou bem na beira, ouvindo o riacho correr e correr, sem parar para ninguém.


A maré baixou e abriu o mar em poças e mais poças, cheias de estrelas cor de laranja. Manuela marchava firme, de mãozinha na trela, e Barnabé rangia atrás dela, oito patas batendo um compasso na areia molhada. Lá na frente esperavam os jardins secretos — e o fim da tarde inteiro para chegar.

para Manuela
Manuela e seu caranguejo-ermitão gigante precisam atravessar um riacho borbulhante para ver os jardins de anêmonas.
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