


Miguel ajeitou o chapĂ©u, ainda quente do vale, e acenou para os sinos que nĂŁo paravam de cantar. A fĂȘnix dourada abriu as asas largas, quase perguntando para onde. Havia um outro horizonte ali adiante, um amontoado de nuvens que ninguĂ©m tinha nome ainda. Miguel respirou fundo e apontou â era para lĂĄ que os dois iam voar.
Ănico no mundo. Seu para sempre.
Uma histĂłria Lumora
impresso para Miguel
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Do vale subiu um ar morno, quase uma respiração antiga, carregando sino e luz misturados. Alguma coisa pequena veio junto â girou, hesitou, quase caiu de novo nas nuvens. Era o chapĂ©u de Miguel, dando uma Ășltima cambalhota no ar. Pousou-lhe na cabeça torto, como se o vento tivesse rido antes de soltĂĄ-lo.


LĂĄ embaixo, as fitas douradas tocaram as torres do reino do rio, quase de leve, quase por acaso. Um sino respondeu â depois outro, e outro, um coral sĂșbito de bronze e luz. Miguel sentiu o som subir pelas nuvens atĂ© o peito, mil vozes de metal saudando a manhĂŁ. NĂŁo era mais fiapo de luz: era um reino inteiro acordando de uma vez.


A nota de Miguel ainda tremia no ar quando a fĂȘnix atravessou o primeiro templo suspenso, quase de leve, como quem conhece o caminho de cor. De cada pena solta um fio de luz dourada â e depois outro, e outro, atĂ© o cĂ©u inteiro parecer costurado de fita-luzes. Miguel nĂŁo segurava nada. SĂł cantava, e o mundo lĂĄ embaixo começava a acender.


Miguel largou as rĂ©deas â soltas de vez, sem peso nas mĂŁos. Encheu o peito de ar frio e cantou a nota do sino, quase sem voz no começo. A fĂȘnix ergueu a cabeça, como quem reconhece um nome antigo. Depois abriu as asas largas e alinhou o voo, mansa, Ă canção de Miguel.


Um som subiu do vale, quase um fio de vidro no ar frio â o primeiro sino do telhado, tocando lĂĄ embaixo, sozinho. Alguma coisa nas penas da fĂȘnix tremeu junto, uma vibração fina que Miguel sentiu antes de ouvir. Era a mesma nota. Exatamente a mesma, como se o pĂĄssaro sempre tivesse sabido cantĂĄ-la.


LĂĄ embaixo, o reino do rio ainda dormia, cinzento. A fĂȘnix cruzava o cĂ©u torta, sem rumo â e das penas nĂŁo saĂam fita-luzes, sĂł fiapos de brilho, quase nada. Miguel olhou para as mĂŁos vazias, sem rĂ©dea, sem bĂșssola. Alguma coisa naquele voo estava fora do tom, e ele ainda nĂŁo sabia dizer o quĂȘ.


O ponteiro da bĂșssola girava e girava, tonto, sem achar norte nenhum. â BĂșssolas nĂŁo cantam a minha canção! â retrucou a fĂȘnix, firme, quase ofendida. Sacudiu as asas, e o instrumento escorregou de volta, mansinho, para o bolso de Miguel. Alguma coisa ali sabia mais do que qualquer ponteiro.


A bĂșssola tremia na mĂŁo de Miguel, a agulha girando sem decidir um norte. Ele gritou direçÔes para o vento, apontando o instrumento rumo aos templos flutuantes. â Ali! Ă por ali! â mas a prĂłpria voz voltava desfeita, quase irreconhecĂvel no ar frio.


O chapĂ©u girou uma vez, duas, e sumiu dentro de uma nuvem â quase sem som, quase sem peso. Miguel largou a rĂ©dea esquerda sem perceber que largava. O cabelo chicoteava-lhe a testa, os templos encolhiam lĂĄ longe, pequenos demais, errados demais. E a fĂȘnix, livre de qualquer mĂŁo firme, despencava para algum lugar que nĂŁo era rota nenhuma.


A fĂȘnix soltou um grito fundo, quase um trovĂŁo baixo, e as penas do pescoço arrepiaram-se de dourado. â Nenhuma rĂ©dea prende quem carrega o sol! â avisou, e a voz vinha de algum lugar antes do som. Uma rajada respondeu ao grito, violenta, saĂda de nenhures. O chapĂ©u de navegador de Miguel arrancou-se da cabeça e sumiu, pequeno, contra o branco das nuvens.


A fĂȘnix abriu as asas e o mundo caiu para trĂĄs. Miguel puxou a rĂ©dea esquerda, um puxĂŁo firme, quase ordem. Mas o pescoço dourado sacudiu, quase um espanto, e a ave rasgou o ar direto para as nuvens altas â para longe de qualquer templo.


Miguel escalou a sela de couro, quente como se guardasse o prĂłprio sol lĂĄ dentro. Segurou as rĂ©deas com as duas mĂŁos â firmes demais, talvez. Sob ele, o peito dourado da fĂȘnix respirava um fole devagar, quase impaciente. LĂĄ longe, os templos flutuantes esperavam, pequenos como promessas.


No alto da plataforma de mĂĄrmore, o mundo era sĂł nuvens â um oceano branco sem fim lĂĄ embaixo. Miguel ajeitou o chapĂ©ro de navegador, quase tremendo. Ao lado dele, alguma coisa dourada se mexeu sob as penas, e o primeiro raio de sol acordou a fĂȘnix devagar, pena por pena.

para Miguel
Miguel precisa guiar uma colossal fĂȘnix dourada sobre as nuvens para acordar o reino com luz.
Uma histĂłria Lumora
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